Fontes de Referência
- Sebrae
- Gazeta Mercantil
- OESP
- Revista Exame
- Revista Venda Mais
Depois de anos sem descanso, o empresário cearense Afonso Gonçalves tirou dez dias de férias. Do seu sítio, no interior de Minas Gerais, ele acompanha o movimento do seu supermercado pela internet, celular e pelo sistema interno de TV. Gonçalves, 43 anos, é dono de um supermercado na periferia de São Bernando do Campo. Há dez anos, era um vendedor ambulante. “Nunca sonhei com isso”, conta o migrante, que chegou a São Paulo no início dos anos 80 com um par de chinelos de dedo e uma mochila nas costas.
O migrante subiu na vida. Até aí, nada de novo. Mas a história de Gonçalves é reveladora de uma transformação silenciosa na periferia do País. Ele é prova de que o capitalismo também está prosperando onde (quase) não existe banco, Bolsa de Valores ou MBAs. No ano passado, o Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial detectou o fenômeno sem querer, ao fazer um estudo encomendado pela Nestlé sobre o consumo em alguns bairros pobres da Grande São Paulo.
“O fim da inflação crônica a partir do Plano Real trouxe uma grande redução da pobreza. Há uma combinação de fatores econômicos e culturais melhorando a qualidade de vida dessas pessoas”, afirma o economista Norman Gall, diretor-executivo do instituto.
Os pesquisadores se surpreenderam com o potencial empreendedor em regiões pobres de São Paulo. “Descobrimos pessoas que não foram à universidade, mas que são intuitivas, vão atrás de informação e de algum tipo de crédito, mesmo que extra-oficial, para fazer seu negócio crescer”, afirma a economista Patrícia Guedes.
O Brasil é um dos países mais empreendedores do mundo. Tem 17,5 milhões de pequenos negócios, incluindo aí até vendedores ambulantes. “O problema é que 68% dos negócios são informais”, estima o diretor técnico do Sebrae, Luiz Carlos Barboza.
Os empreendedores retratados nesta reportagem foram informais no estágio
inicial. Com muita dificuldade, romperam essa barreira e sofisticaram seus negócios para ir além da subsistência.
O acesso à informação é apontado como um dos principais motores dessa transformação silenciosa. A informação chega com a popularização da internet, o fortalecimento de organizações não-governamentais e igrejas e até mesmo a partir de grandes empresas cada vez mais interessadas em vender para a baixa renda. “É a chamada inclusão produtiva. Uma informação, por menor que seja, significa uma grande mudança no padrão de renda”, acredita o diretor técnico do Sebrae, Luiz Carlos Barboza.
Gonçalves, o dono do supermercado, prosperou junto com sua comunidade, que, segundo ele, tem mais dinheiro para comprar produtos supérfluos.
O empresário não recebeu nada de graça. O negócio só foi adiante porque Gonçalves é um empreendedor nato, dono de uma sensibilidade que dificilmente uma grande rede varejista teria para lidar com o consumidor de baixa renda.
Ele é observador, acompanha as movimentações do varejo brasileiro, não descuida da apresentação nas gôndolas, conhece os clientes pelo nome e vez ou outra testa os hábitos deles. Não é científico, mas funciona. Ele é do tipo que coloca margarina numa prateleira, fora da geladeira, só para ver se o cliente compra mais. “Vende muito mais rápido. O cliente tem preguiça de abrir a geladeira”, ensina Gonçalves.
(O Estado de S. Paulo de 21/01/2007)
Comentários Nível 10
A “transformação silenciosa” que o artigo aborda, é o espantoso crescimento da classe C, que em dois anos, ganhou 23,5 milhões de pessoas.
Para ter uma idéia de sua expressividade na economia do país, analisemos alguns números:
- De cada 10 computadores vendidos, 4 são comprados pela classe C;
- De cada 10 linhas de celulares, 4 estão na mão da classe C;
- De cada 10 cartões de crédito emitidos, 7 são para a classe C;
- 1 em cada 3 pessoas da classe C, tem conta bancária.
Se este é o público alvo de sua empresa, você já deve estar sentindo o aquecimento de suas vendas. Se ainda não sentiu, veja o que está fazendo de errado e conserte o quanto antes, para não perder esta onda.